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Famílias em situação de rua no Brasil: o que é dado oficial, o que é mensurável e o que ainda é estimativa

Por Antônio Diógenes – 19 de fevereiro de 2026

Cadastro Único registra 356.073 famílias em janeiro de 2026; série histórica mostra crescimento de mais de sete vezes em dez anos

Resumo executivo

Em janeiro de 2026, o Cadastro Único (CadÚnico) registava 356.073 famílias em situação de rua no Brasil (contagem administrativa de famílias cadastradas nessa condição). 

Esta é, hoje, a medida nacional mais recente e verificável de “famílias” (e não apenas “pessoas”) em situação de rua, mas tem uma limitação estrutural: não é um censo da população de rua; é uma base de registo e, portanto, tende a subcontar quem não foi abordado/cadastrado pela rede socioassistencial ou não conseguiu completar o registo. 

A série histórica do CadÚnico (disponível mensalmente desde 2012) mostra crescimento muito acentuado na última década. Um indicador simples: o stock passou de 48.355 famílias (dez/2015) para 352.843 (dez/2025) e 356.073 (jan/2026), ou seja, cerca de 7,36 vezes em pouco mais de 10 anos (crescimento médio anual aproximado de ~22%, sem “margem de erro” formal por se tratar de registo administrativo). 

Em paralelo, para medir pessoas (não famílias) fora do CadÚnico, existe uma linha de estimativas modeladas do Ipea, baseada em dados municipais, que aponta 281.472 pessoas em situação de rua em 2022 (estimativa nacional; método estatístico descrito pelo próprio estudo). 

Para um retrato mais recente de pessoas com base em séries do próprio CadÚnico (processadas e divulgadas por centros académicos), o levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/Polos‑UFMG) reportado pela imprensa pública indica 365.822 pessoas em situação de rua em dez/2025 (e 327.925 em dez/2024), com forte concentração no Sudeste. 

Conceitos e definições operacionais

A definição de referência na política federal é a do Decreto nº 7.053/2009, que caracteriza “população em situação de rua” como grupo em pobreza extrema, com vínculos familiares interrompidos/fragilizados, sem moradia convencional regular, que utiliza logradouros públicos/áreas degradadas como espaço de moradia e sustento (temporária ou permanentemente) e/ou unidades de acolhimento como pernoite temporário ou moradia provisória. 

No CadÚnico, a unidade de registo é a família (unidade familiar) e existe um procedimento específico para o registo de pessoas/famílias em situação de rua, incluindo possibilidade de uso de endereço de referência institucional (como Centro POP/CREAS/CRAS e unidades de acolhimento), o que é crucial para viabilizar o cadastro sem domicílio convencional. 

A ficha técnica do indicador público do CadÚnico usado aqui (IN021 – Famílias em situação de rua cadastradas) define “família em situação de rua” alinhada ao Decreto nº 7.053/2009 e explicita que o registo depende do preenchimento do Formulário Suplementar 2 e de marcações/condições específicas nos blocos do formulário do CadÚnico (critérios simultâneos). 

Estimativa nacional mais recente de famílias em situação de rua

Número (Brasil)

O dado mais recente publicamente disponível no ecossistema oficial de indicadores do CadÚnico aponta:

  • 356.073 famílias em situação de rua (jan/2026) 
  • 352.843 (dez/2025) 

Estes valores referem-se a famílias registadas no CadÚnico como estando em situação de rua, não necessariamente ao universo total existente no país. 

Metodologia (síntese verificável)

A metodologia do indicador público (IN021) descreve, em termos operacionais, uma contagem de códigos familiares distintos no CadÚnico sob filtros simultâneos que identificam efetivamente situação de rua (incluindo marcação específica, ausência/bloqueio de campos de domicílio e preenchimento do “Suplementar 2”), além do estado cadastral ativo da família/pessoas. 

Trata-se de uma contagem administrativa. Por isso:

  • não existe intervalo de confiança/margem de erro como em inquéritos amostrais;
  • a principal incerteza é de cobertura (quem não foi abordado/cadastrado) e de qualidade/consistência do preenchimento, sobretudo em transições de regras e “limpeza” de base. 

Tendência temporal recente e quebras de comparabilidade

A série mensal pública do CadÚnico mostra crescimento pronunciado ao longo do tempo. Alguns marcos (valores de fim de ano) ilustram a tendência:

  • dez/2015: 48.355
  • dez/2019: 138.734
  • dez/2022: 192.125
  • dez/2023: 254.100
  • dez/2024: 316.653
  • dez/2025: 352.843
  • jan/2026: 356.073 

Isto implica um aumento de cerca de +11,4% de dez/2024 → dez/2025, e de cerca de +12,0% de jan/2025 → jan/2026 (cálculos diretos a partir dos valores oficiais acima). 

Notas críticas de comparabilidade

A própria série contém quedas abruptas em certos meses (por exemplo, maio/2021 e agosto/2022), compatíveis com ajustes/qualificação de registos e/ou alterações de critério operacional (um fenómeno comum em bases administrativas quando são aplicadas novas críticas de consistência). 

Além disso, em 2025 observa-se lacuna/irregularidade em alguns meses (a série pública lista meses sequenciais, mas nem todos aparecem com valor na exportação textual), sugerindo evento de processamento/integração de sistemas e reforçando cautela ao comparar mês a mês. 

Timeline (marcos de fim de ano)

2015-1248.3552019-12138.7342022-12192.1252023-12254.1002024-12316.6532025-12352.8432026-01356.073Famílias em situação de rua no CadÚnico (marcos)Mostrar código

Fonte dos valores: CadÚnico / VIS DATA 3 (SAGICAD/DECAU) e agregados GPTE. 

Distribuição territorial: o que dá para afirmar com transparência

O que existe para “famílias” (CadÚnico)

O indicador IN021 é desagregável por município, UF, grandes regiões e país, mas a extração pública “em texto” nem sempre expõe, no mesmo ecrã, as tabelas regionais completas. Ou seja: há suporte oficial para desagregação, mas nem todos os recortes são automaticamente recuperáveis no formato consultado nesta pesquisa. 

Ainda assim, há dados verificáveis por recortes específicos. Exemplo: em fev/2025, o total Brasil era 320.386 famílias (CadÚnico), número que também surge como referência nacional em reportagens que explicitamente citam a base oficial consultada. 

O que existe para “pessoas” (OBPopRua/CadÚnico) e pode servir como proxy territorial

Para pessoas, a reportagem da Agência Brasil (com base no OBPopRua/Polos‑UFMG e em dados do CadÚnico) traz um recorte territorial direto e recente:

  • dez/2025: 365.822 pessoas em situação de rua (vs. 327.925 em dez/2024); 
  • Sudeste: 222.311 pessoas (61%);
  • Nordeste: 54.801 pessoas;
  • concentração estadual: São Paulo 150.958Rio de Janeiro 33.656Minas Gerais 33.139; mínimo reportado: Amapá 292

Estes números são de pessoas, não de famílias. Contudo, dado que no CadÚnico muitas “famílias” em situação de rua são unipessoais (uma única pessoa), os padrões territoriais para pessoas tendem a aproximar-se dos padrões territoriais para famílias — ainda assim, isto é uma inferência, não uma equivalência garantida. 

Mapa de calor por região (indicação)

Um mapa de calor estático recomendável (para publicação) é o de densidade/stock por grandes regiões com base no recorte de pessoas em dez/2025 (OBPopRua/CadÚnico) e, separadamente, o stock nacional de famílias (CadÚnico). O que é verificável com os dados já citados é, pelo menos, a liderança do Sudeste e a segunda posição do Nordeste para pessoas

Como as fontes se relacionam (e por que os números diferem)

Há, na prática, três “famílias” de números sobre situação de rua no Brasil:

  1. Registo administrativo (CadÚnico): mede famílias/pessoas cadastradas como em situação de rua; é o melhor dado nacional contínuo para “famílias”, mas depende de cobertura e cadastro efetivo. 
  2. Estimativas modeladas (Ipea): procuram estimar pessoas em situação de rua para contornar a ausência histórica de contagem oficial nacional, usando dados municipais e modelação estatística; por construção, têm pressupostos e podem divergir do que aparece no CadÚnico. 
  3. Censo demográfico (IBGE): o Censo é orientado a domicílios; quando aborda “situação de rua”, aparece sobretudo via categorias como domicílios coletivos (por exemplo, abrigos/albergues/casas de passagem), o que não equivale a uma contagem de quem dorme em logradouros públicos. Há informação de que, em 2022, existiam 11.295 pessoas em “abrigo, albergue ou casa de passagem para população em situação de rua” (recorte de domicílios coletivos). 

Em síntese: o CadÚnico é o melhor para famílias cadastradas; Ipea e OBPopRua ajudam a ler pessoas e tendências; o Censo/IBGE ilumina subconjuntos (como residentes em abrigos) e não resolve, por si só, a contagem total de quem vive na rua.

Tabela comparativa das principais fontes

FonteAno / referênciaNúmero de famíliasDefinição operacionalMetodologia resumidaCobertura geográficaConfiabilidade (para “famílias”)
CadÚnico (indicador IN021; VIS DATA 3 / SAGICAD‑DECAU)jan/2026356.073“Família em situação de rua” alinhada ao Decreto nº 7.053/2009; identificação via formulário específico (Suplementar 2) e marcações no CadÚnicoContagem administrativa de códigos familiares distintos com filtros simultâneos (estado cadastral ativo; marcações e FS2)Brasil; desagregável até municípioAlta para o universo cadastrado; incerteza de cobertura (sub-registo) e sensível a mudanças de critério/qualidade
CadÚnico (série histórica pública)dez/2025352.843Idem (Decreto 7.053/2009 aplicado ao cadastro)Registo mensal; série pública longa (2012+)Brasil (série)Alta para tendência no cadastro; cautela em meses com quebras/ajustes
Ipea – Nota Técnica nº 103 (Natalino)2022n/d (reporta pessoas)“Pessoas em situação de rua” estimadas a partir de dados municipais; não é “família”Modelo estatístico (GLM/Poisson, com dados municipais; evolução 2012–2022)Estimativa nacionalNão mede famílias; útil como estimativa de pessoas e tendência histórica
OBPopRua/Polos‑UFMG (base CadÚnico; reportado na Agência Brasil)dez/2025n/d (reporta pessoas)“Pessoas em situação de rua” (série sobre CadÚnico, tratada por observatório académico)Consolidação/monitorização de série com base CadÚnico; divulgação pública periódicaBrasil + recortes regionais/estaduais (pessoas)Não fornece diretamente famílias; útil para distribuição territorial de pessoas e narrativa de tendência recente
IBGE – Censo 2022 (domicílios coletivos)2022n/d (reporta pessoas em abrigos)Moradores em tipos de domicílio coletivo (inclui “abrigo/albergue/casa de passagem para população em situação de rua”)Operação censitária por domicílios; não equivale a contagem de pessoas a dormir em via públicaBrasil (Censo)Não responde diretamente “famílias na rua”; útil para subgrupo institucionalizado

Ligações para as fontes originais

textCopiarCadÚnico (VIS DATA 3) – Famílias em situação de rua (série):
https://aplicacoes.cidadania.gov.br/vis/data3/v.php?q%5B%5D=oNOclsLerpibuKep3bV%2Bfmhj05Kv2rmg2a19ZW51ZXKmaX6JaV2JlmCbb2CNrMmTbXuUoNqmrMGpjLrCl6WjlMnusm%2BiqaGt3nSItJiZysZupbCoyveho7CpoVrdnm20mJoaDp%2FTnqZ94LpUr7Gpr9r89BHanHfFmIqvqL6btqKvq6ej7ZrAbqWcd6SUzp6m0e28VP%2Fio6PcqMm%2BcqnT3W4%3D

CadÚnico (VIS DATA 3) – GPTE (inclui famílias em situação de rua; linha com jan/2026):
https://aplicacoes.cidadania.gov.br/vis/data3/v.php?q%5B%5D=oNOclsLerpibuKep3bWGh7Ne09Oc5qqY0PfJsLi4

Wiki SAGI – IN021 (ficha técnica/metodologia do indicador):
https://wiki-sagi.mds.gov.br/home/DS/Cad/I/IN021

Decreto nº 7.053/2009 (definição e PNPSR):
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d7053.htm

MDS – “População em situação de rua no cadastro único” (orientações e acesso ao cadastro):
https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/suas/servicos-e-programas/populacao-em-situacao-de-rua-no-cadastro-unico

Ipea – Nota Técnica nº 103 (Estimativa da população em situação de rua 2012–2022):
https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/11604/4/NT_103_Disoc_Estimativa_da_Populacao.pdf

Agência Brasil (EBC) – reportagem com dados OBPopRua/Polos‑UFMG (dez/2025):
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-01/estudo-aponta-mais-365-mil-pessoas-em-situacao-de-rua-no-brasil

OBPopRua/Polos‑UFMG – página institucional/dados:
https://obpoprua.direito.ufmg.br/

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