“Transparência não pode ser exigência para adversários e opção confortável para aliados.”
O caso Banco Master exige uma régua única: Flávio Bolsonaro, Lula, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Lewandowski, Ciro Nogueira e qualquer autoridade citada devem ser tratados com o mesmo rigor, a mesma coragem jornalística e a mesma responsabilidade institucional.
Por Antônio Diógenes | 18 de maio de 2026
Há momentos em que o Brasil precisa parar de discutir torcida e começar a discutir princípio.
O caso Banco Master não pode ser tratado como uma arma política para atingir apenas um lado. Também não pode ser escondido debaixo do tapete quando atinge figuras influentes do outro lado. O que está em jogo é maior do que Flávio Bolsonaro, maior do que Lula, maior do que ministros do Supremo, maior do que partidos, governos ou jornais.
O que está em jogo é a credibilidade das instituições.
Se há dúvidas sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e sobre recursos ligados ao filme Dark Horse, que Flávio apresente os documentos. Que mostre o que entrou, o que saiu, de quem veio, para onde foi, por qual contrato, em qual data, por qual serviço e com qual comprovante.
Não basta dizer que foi apoio artístico ou cultural. Pode até ter sido. Mas quem está na vida pública não pode pedir confiança no escuro. Precisa provar.
A sociedade tem o direito de ver notas, recibos, contratos, transferências, planilhas, entradas e saídas. Se está tudo certo, que se mostre tudo. Se não está, que se investigue. E, se houver erro, que haja punição na forma da lei.
Mas aqui está o ponto central: essa régua não pode valer apenas para Flávio Bolsonaro.
Ela precisa valer para todos.
Precisa valer para Lula, quando surgem questionamentos sobre encontros fora da agenda com Daniel Vorcaro. Reportagens registraram que Vorcaro mencionou encontro com o presidente fora da agenda oficial, e a Folha publicou que esse encontro teria ocorrido em 2024, antes de haver investigação formal do Banco Central sobre carteiras do Master. Isso não significa culpa automática. Mas significa que há pergunta pública legítima. E pergunta legítima exige resposta pública séria.
“A Justiça não pode perguntar primeiro qual é o partido; deve perguntar quais são os fatos, as provas e os documentos.”
Precisa valer para Alexandre de Moraes, quando o escritório de sua esposa aparece em reportagens sobre contratos milionários com o Banco Master. A CNN informou que dados enviados à CPI apontaram R$ 80,2 milhões recebidos pelo escritório entre 2024 e 2025; outros veículos trataram de contrato de R$ 129 milhões ao longo de 36 meses. A defesa apresentou explicações, afirmou prestação de serviços jurídicos e negou atuação no STF. Muito bem. Então que tudo seja examinado com serenidade, documento e critério. Nem condenação antecipada. Nem blindagem automática.
Precisa valer para Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso Banco Master após aumento da pressão pública sobre possíveis vínculos e questionamentos. Reuters e Financial Times registraram que Toffoli negou pagamentos ou relação financeira direta com Vorcaro, mas se afastou da condução do caso. Ora, se houve questionamento suficiente para gerar afastamento da relatoria, também deve haver transparência suficiente para esclarecer tudo ao país.
Precisa valer para ministros, autoridades, parlamentares, integrantes do governo, membros do Judiciário, dirigentes de órgãos públicos e figuras importantes que tenham participado de eventos, viagens, encontros, contratos ou relações com o Banco Master. A Folha noticiou gastos milionários do Master com eventos que reuniram autoridades em Londres, Nova York e Lisboa; a CNN também registrou participação de Vorcaro em evento jurídico com ministros de tribunais superiores. Isso, por si só, não é sentença. Mas é matéria de interesse público.
E precisa valer também para Ciro Nogueira, Hugo Motta, Lewandowski ou qualquer nome que apareça em mensagens, registros, agendas, voos, contratos ou eventos. A regra é simples: apareceu em contexto relevante, esclareça. Havendo indício, investigue. Havendo prova, responsabilize. Havendo inocência, preserve-se a honra.
O que não dá é para o Brasil funcionar com dois pesos e duas medidas.
Não dá para parte da imprensa fazer tempestade quando o personagem é Flávio Bolsonaro e silêncio cuidadoso quando o personagem está mais perto do governo, do Judiciário ou dos círculos de poder que ela prefere preservar.
E também não dá para o campo bolsonarista cobrar transparência dos outros e, quando a cobrança chega em Flávio, tratar toda pergunta como perseguição.
Coerência não é escolher um lado para proteger.
Coerência é aplicar a mesma régua a todos.
Se Flávio Bolsonaro recebeu ou articulou recursos privados para um filme, que comprove tudo. Se houve contrato, que apresente. Se houve pagamento, que mostre. Se houve intermediação, que explique. Se o dinheiro chegou ao filme, que prove. Se não chegou, que diga onde foi parar.
Mas, ao mesmo tempo, se há encontros fora da agenda envolvendo Lula e Vorcaro, que se esclareça. Se há contrato milionário envolvendo escritório ligado à família de ministro do Supremo, que se esclareça. Se há voos em jatinhos, eventos internacionais, despesas pagas, aproximações políticas e relações com autoridades, que se esclareça.
Transparência não pode ser seletiva.
Justiça não pode ser instrumento de conveniência.
Jornalismo não pode ser militância com crachá de imparcialidade.
O caso da CPMI do INSS também entra nessa mesma lógica. O Senado registrou que havia requerimentos para quebra de sigilo do filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A CartaCapital noticiou que a CPMI rejeitou a convocação dele após pressão da base governista. Se havia elementos para perguntar, a pergunta não deveria morrer por conveniência política.
Porque quando uma investigação avança até determinado ponto e, de repente, perde força ao tocar em alguém poderoso, o cidadão comum percebe. E quando o cidadão comum percebe seletividade, ele deixa de confiar.
E sem confiança, a democracia adoece.
O Brasil não precisa de perseguição contra inimigos.
Também não precisa de blindagem para aliados.
Precisa de fatos.
Precisa de provas.
Precisa de documentos.
Precisa de investigação séria.
Precisa de jornalismo corajoso.
Precisa de Justiça imparcial.
Não se trata de defender Flávio Bolsonaro. Não se trata de defender Lula. Não se trata de atacar Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Lewandowski, Ciro Nogueira ou qualquer outro nome. Trata-se de defender uma regra civilizatória: quem deve, responde; quem errou, paga; quem é acusado, tem direito de defesa; e quem acusa tem obrigação de provar.
“Um país sério não escolhe quem investigar pela cor da bandeira política: investiga todos com o mesmo rigor e pune todos com a mesma força da lei.”
Essa é a linha que separa justiça de linchamento.
E também separa democracia de abuso.
Se o Brasil quer amadurecer, precisa abandonar a seletividade moral. Não existe corrupção boa quando é do meu lado. Não existe suspeita irrelevante quando atinge o lado que eu protejo. Não existe transparência obrigatória para adversários e opcional para aliados.
A lei não pode perguntar primeiro qual é o partido.
A imprensa não pode perguntar primeiro qual é o campo ideológico.
A Justiça não pode perguntar primeiro quem será beneficiado.
A pergunta deve ser uma só: há fatos? Há provas? Há documentos? Há irregularidade? Então investigue. Se houver culpa, puna. Se não houver, arquive e preserve a honra.
Porque um país sério não escolhe quem deve ser investigado pela cor da bandeira política.
Um país sério investiga todos com o mesmo rigor.
E pune todos, quando houver prova, com a mesma força da lei.




















