O programa pode parecer ajuda ao cidadão endividado, mas também expõe um governo que pesa no bolso do povo, favorece bancos e transforma a dor financeira dos brasileiros em instrumento eleitoral.
Por Antônio Diógenes | 5 de maio de 2026
O brasileiro não se endividou por acaso. Ele se endividou porque a vida ficou pesada demais. Comida cara, imposto alto, crédito sufocante, salário curto e um governo que gasta como se o dinheiro público não saísse do bolso de quem trabalha.
O Novo Desenrola Brasil aparece, em pleno ano eleitoral, como se fosse uma grande solução nacional. O programa promete descontos que podem chegar a 90%, renegociação de dívidas e uso de recursos do FGTS para quitar débitos. Parece generoso. Mas a pergunta é inevitável: generoso com quem?
Ponto central“O povo entra com o sacrifício, o banco reduz o prejuízo e o governo faz propaganda.”
Porque o trabalhador pode usar o próprio FGTS, os bancos recuperam valores que talvez nem recebessem, e o programa pode contar com garantia bilionária do Fundo Garantidor de Operações. Segundo a Reuters, o Novo Desenrola pode ser apoiado por até R$ 15 bilhões do FGO e foi relançado antes da disputa presidencial de outubro de 2026. Em linguagem simples: o povo entra com o sacrifício, o banco reduz o prejuízo e o governo faz propaganda.
Lula tenta vender alívio, mas o governo dele precisa responder pelo sufoco que o brasileiro sente hoje. O país convive com juros altos, insegurança fiscal e contas públicas pressionadas. Em março de 2026, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 73,8 bilhões; no primeiro trimestre, o resultado ficou negativo em R$ 17,1 bilhões. Ou seja: o governo gasta mais do que arrecada, aumenta a desconfiança e a conta sobra para o cidadão.
E quando o governo se endivida, quem paga é o povo. Paga no imposto. Paga no juro. Paga no mercado. Paga no crédito. Paga até quando acha que está recebendo ajuda.
O Banco Central reduziu a Selic para 14,50% ao ano em 29 de abril de 2026, mas os juros continuam pesados para famílias e empresas. Cartão, cheque especial, empréstimo e financiamento seguem caros porque a economia não respira confiança.
É por isso que o discurso de Lula em defesa dos pobres precisa ser enfrentado com coragem. Ele fala em acabar com a fome, fala em proteger os vulneráveis, fala em cuidar do povo. Mas, na prática, entrega migalhas enquanto o trabalhador continua esmagado por imposto, dívida, juros e custo de vida.
A cobrança aqui não é para defender partido, governo anterior ou qualquer político. É para lembrar uma verdade simples: quando o Estado erra, quem paga a conta é o cidadão. E quando a pobreza vira discurso permanente de poder, o povo precisa olhar com ainda mais atenção para aquilo que está sendo vendido como solução.
Mesmo quando o governo usa dados oficiais para dizer que o Brasil melhorou, é preciso cautela. Não se trata de atacar os técnicos sérios do IBGE, que têm história e importância para o país. Mas o instituto vive uma crise pública. O Ministério Público junto ao TCU pediu o afastamento de Márcio Pochmann da presidência do IBGE, apontando crise interna, troca de técnicos e questionamentos sobre a Fundação IBGE+.
Também há registros de servidores acusando a gestão do IBGE de usar a comunicação oficial para promoção pessoal. Isso não prova manipulação de dados. Mas acende um alerta: quando o governo usa números oficiais como propaganda, o cidadão tem o direito de perguntar se tudo está sendo apresentado com independência ou se há interesse político no meio.
“Quando o governo usa a pobreza como discurso, mas entrega migalhas como solução, a crítica deixa de ser apenas política. Passa a ser moral.”
Ajudar quem está endividado é justo. Ninguém deve tratar com desprezo quem perdeu renda, atrasou uma conta ou ficou com o nome sujo. O pequeno devedor não pode ser tratado como inimigo do país.
Mas criar o sufoco, empurrar o cidadão para a dívida e depois aparecer como salvador é outra coisa.
O Brasil não precisa de espetáculo de renegociação. Precisa de governo responsável, imposto menor, juros mais leves, comida mais barata e respeito ao dinheiro público.
Porque o povo não vive de propaganda.
Vive de salário, de trabalho, de mercado, de boleto, de aluguel, de remédio e de comida na mesa.
E quando o governo transforma a miséria em palco, o endividado em peça de campanha e o contribuinte em financiador da conta, não estamos diante de política social de verdade.
Estamos diante de marketing em cima da miséria.

















