Por Antônio Diógenes – 31 de janeiro de 2026
Pressão por investigação no Congresso contrasta com manobras de esvaziamento político e risco de descrédito institucional
No retorno oficial do recesso parlamentar, os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado Federal, Davi Alcolumbre, optaram por uma estratégia de contenção diante da crescente pressão por uma investigação legislativa sobre o colapso do Banco Master. Mesmo com o número mínimo de assinaturas requerido para a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), os líderes do Congresso Nacional articulam o adiamento da pauta investigativa, em sintonia com os interesses do Palácio do Planalto.
A movimentação, segundo fontes do próprio Legislativo, se materializa na não convocação de sessões conjuntas – necessárias para a leitura do requerimento de instalação da CPI. O objetivo seria postergar qualquer iniciativa até depois do Carnaval, aproveitando a relativa baixa mobilização popular e midiática no período. A prática já foi observada em outros momentos do cenário político brasileiro e revela, mais uma vez, a tensão entre a demanda por transparência e os acordos de bastidores que sustentam a governabilidade.
O caso que motiva a tentativa de investigação parlamentar é a crise no Banco Master, que sofreu intervenção e liquidação extrajudicial decretadas pelo Banco Central em outubro de 2025. A instituição financeira era suspeita de práticas fraudulentas em operações com títulos de alto risco e em mecanismos de crédito. O episódio abalou a estabilidade de fundos e investidores, com reflexos diretos sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que precisou injetar recursos vultosos para garantir a cobertura de valores a clientes prejudicados.
Do ponto de vista do sistema financeiro, a falência do Banco Master revelou lacunas importantes nos mecanismos de fiscalização e regulação do setor. Além disso, provocou um efeito dominó sobre outras instituições de médio porte, levando a ajustes nas exigências de compliance e exposição a riscos.
Já no campo político, a postura do Congresso em protelar a instalação da CPI joga luz sobre os limites da accountability no Brasil contemporâneo. A decisão de empurrar o tema para depois das festividades carnavalescas permite uma leitura de cálculo político frio: ao diminuir o interesse midiático e a pressão popular, líderes da base governista e do chamado Centrão ganham margem de negociação para reconfigurar os termos do debate ou até mesmo enterrar o assunto sem grande repercussão.
O movimento ocorre simultaneamente ao acúmulo de 73 vetos presidenciais que aguardam deliberação parlamentar. Entre eles está o veto ao projeto de dosimetria de penas, com impacto direto em casos judiciais envolvendo figuras do alto escalão político, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. A coincidência dessas pautas sensíveis no início do ano legislativo reforça a complexidade do atual xadrez institucional, no qual decisões de alta relevância jurídica e política caminham em paralelo a estratégias de contenção e opacidade.
O episódio do Banco Master também tem causado impacto no ecossistema midiático. A resistência à CPI acirra o debate entre setores da imprensa que exigem respostas rápidas e mecanismos de investigação robustos e representantes do governo e do Congresso que defendem moderação e cautela para evitar instabilidades. A desconfiança gerada por esse impasse tende a reforçar a percepção de que há um descompasso entre os interesses do Legislativo e as demandas da sociedade civil por transparência e justiça.
Diante da inação institucional, cresce o protagonismo de outros atores, como o Ministério Público Federal, o Tribunal de Contas da União e associações do setor financeiro, que passaram a demandar medidas mais enérgicas para esclarecer responsabilidades e evitar novos abalos. A não instalação da CPI pode, portanto, funcionar como um catalisador de outras formas de pressão institucional, ampliando o desgaste do Congresso junto à opinião pública.
A médio prazo, a conduta dos presidentes das Casas Legislativas em casos de alta repercussão pública será decisiva para aferir o grau de comprometimento do Parlamento com os princípios democráticos e a fiscalização dos poderes. A resistência à CPI do Banco Master é mais do que uma manobra política pontual: é sintoma de uma arquitetura institucional em disputa, onde transparência, estabilidade e interesse público se confrontam em um equilíbrio cada vez mais precário.


















