Da taxação dos produtos importados ao discurso de proteção aos pobres, Lula tenta reescrever os fatos, mas a memória digital não permite que a propaganda substitua a realidade.
Por Antônio Diógenes | 20 de maio de 2026
Lula falta com a verdade, e isso já não surpreende. O que ainda impressiona é a capacidade de repetir o mesmo roteiro, com a mesma voz mansa, a mesma pose popular e a mesma promessa de redenção nacional, como se o Brasil não tivesse memória.
O caso da chamada “taxa das blusinhas” é um retrato perfeito dessa contradição. O nome parece pequeno, quase inofensivo, mas a cobrança atingia produtos importados de baixo valor, comprados por brasileiros comuns em sites internacionais. Não era imposto sobre luxo. Era imposto sobre a compra barata de quem, muitas vezes, só compra fora porque não consegue pagar caro aqui dentro.
Em 2024, o governo Lula articulou politicamente a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares. A base governista sustentou o acordo no Congresso, e o próprio presidente sancionou a Lei 14.902, que criou a taxação. A cobrança entrou em vigor em agosto daquele ano. O fato é simples: o governo apoiou, o Congresso aprovou e Lula assinou.
Agora, com o calendário eleitoral se aproximando, o mesmo Lula tenta aparecer como quem nunca quis a taxa. Mas a internet não esquece. Em maio de 2026, o governo assinou uma medida provisória para zerar o imposto federal sobre essas compras. Primeiro cobrou. Depois, diante do desgaste, tentou transformar o recuo em gesto de bondade.
Esse é o método: cria-se a cobrança, pesa-se no bolso do povo, mede-se a rejeição e, quando a conta política fica alta, apresenta-se a correção do próprio erro como se fosse generosidade presidencial.
A contradição fica ainda mais simbólica quando se compara o discurso popular com a imagem pública do poder. Enquanto o cidadão comum era taxado na compra pequena, Lula aparecia usando um tênis de luxo da grife italiana Zegna, associado por veículos ao modelo Triple Stitch, com valores divulgados entre cerca de R$ 8 mil e R$ 10,5 mil. A crítica aqui não é ao uso de um calçado. É à distância entre a estética da simplicidade e a prática do privilégio.
Enquanto o povo conta moedas para fechar a feira, Lula desfila símbolos de luxo que contradizem o discurso da simplicidade.
E a “taxa das blusinhas” foi apenas uma entre várias medidas arrecadatórias. No governo Lula, com Fernando Haddad como principal operador da política econômica, vieram a reoneração dos combustíveis, o aumento do IOF, a tributação das apostas, a limitação das compensações tributárias de PIS/Cofins, alterações em benefícios fiscais como o Perse e a própria taxação das compras internacionais.
Enquanto isso, Lula tenta vender a ideia de que governa para os pobres, que reconstruiu o país, que é novamente o homem capaz de resolver tudo. Mas fora da propaganda oficial, o Brasil real conta outra história: empresário sufocado, trabalhador espremido, consumidor pagando mais caro e famílias sentindo o peso do imposto escondido em cada produto, em cada serviço, em cada conta.
Não é por acaso que empresas brasileiras olham para o Paraguai como alternativa. Quando produzir no próprio país se torna caro, burocrático e inseguro, o empresário busca onde haja menor carga tributária, energia mais barata e regras mais previsíveis. Isso não é traição ao Brasil. É sintoma de um ambiente econômico que empurra quem produz para fora.
Na outra ponta, os municípios também sofrem. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que mais de 3 mil municípios estavam inadimplentes e impedidos de acessar recursos federais por causa de entraves ligados à LDO. E é no município que a crise deixa de ser estatística: vira posto sem estrutura, estrada abandonada, obra parada e serviço público que não chega a quem mais precisa.
Na Polícia Federal, a contradição também aparece. Lula passou anos acusando Bolsonaro de interferir na corporação. Agora, quando uma investigação sobre fraudes no INSS envolveu pedido relacionado a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, houve mudança na chefia do caso. A Polícia Federal apresentou explicações administrativas, mas a pergunta política permanece: quando acontece com o adversário, é interferência; quando acontece perto do Palácio, é apenas procedimento interno?
O problema não é o preço do sapato; é o abismo entre a estética do povo e o conforto do poder.
E agora Lula volta ao palco com o mesmo personagem: o presidente que vai consertar o Brasil. Mais uma vez, o mesmo discurso. A mesma promessa. A mesma tentativa de transformar passado em narrativa e desgaste em marketing.
Mas há uma diferença decisiva: hoje existe memória digital. Existe rede social. Existe cidadão comum comparando fala antiga com ato novo, promessa com decreto, discurso com assinatura. Por isso qualquer tentativa de controlar a voz das redes precisa ser vista com profunda desconfiança. Quando o povo fala, a propaganda treme.
Lula pode tentar mudar o discurso. Pode trocar a embalagem. Pode vender novamente a imagem do homem preocupado com os pobres.
Mas o povo já viu a conta chegar.
E quando a contradição encontra a memória da internet, nem a propaganda mais bem produzida consegue sustentar a mentira por muito tempo.


















